terça-feira, 9 de setembro de 2014

O BRILHO


Eu não sei exatamente quando foi que ela me pediu um texto. Andava insegura, incerta de seus anseios. Lembro de me pedir um texto como forma de ali se encontrar. Imaginei que seria como um mecanismo para que ela se visse de maneira diferente. Um espelho de bons reflexos.  Sei bem como é... já quis um também....

Escrever não seria problema. Demandaria um pouco de tempo, caneta ou lápis, qualquer pedaço de papel. Não mais que isso. Disse que tudo bem, e confesso que fui para casa tentar. Coloquei-me a postos:  pus-me severamente concentrada. Olhei vezes e mais vezes para o papel, mas nada saía... Eu pensava, pensava, pensava... E nada de substancial nascia. Absolutamente nada de substancial. E não tinha jeito, não podia ser qualquer coisa! Como presentear uma grande amiga, tão presente, com dúzias de palavras mal escritas? Junções formulando conceitos superficiais de sua pessoa? Separações entre o ser e o não ser com vírgulas vazias, dois pontos reticentes, e reticências mil??? Não dava sabe... Não mesmo... guardei tudo chateada, e resolvi esperar. Esperar e deixar ao acaso.

Ocorre que o acaso demorou para caramba... Ou não. Talvez fosse o tempo necessário, para redescobrir nela alguma coisa que não estava lá quando a solicitação foi feita. Porquê na época me parecia que faltava algo que não me instigava a criatividade necessária para uns bons dizeres. Eu às vezes olhava para ela sem que ela percebesse, como quem procura um ponto de partida para começar. E mesmo quando o estalo me ocorreu, demorei um pouco para identificar o que era. O que exatamente havia “startado” o processo. O que mudou afinal para que algo tivesse brilhado para que... ahhhh sim... estava claro agora. Literalmente claro. Era isso. Era o brilho. O brilho,  cara... Na ocasião lhe faltava o brilho! Na verdade, arrisco dizer: esse brilho em tese nem existia!  Não esse... um brilho leve... um brilho alegre, um brilho de mãe. Tão visível que de longe a vejo chegar quando nos encontramos, e ela brilha e sorri já láááá de longe. Vem se destacando, destacando, até chegar pertinho e me responder como vão as coisas. E até transbordar de mais brilho ainda quando lhe pergunto “e como vai o filhotinho???”

E brilha muito, e muito mesmo.... Um brilho sereno, convicto, maduro. Um brilho de quem não precisa de mais nada, porquê acordou um dia, se livrou de tudo de ruim, e do nada se encontrou. Se encontrou, correu para o espelho e pelo visto gostou muito mais do que viu. Porque no final das contas,  espelho nenhum faria ou faz milagre. O espelho só reflete nossa imagem estática acompanhada daquela boa parcela da alma que escorrega pelos poros  e desemboca nos nossos olhos, através do brilho. Sendo que para que isso ocorra, é necessário estar feliz!

 



Para Dídi.

 

Nunca é tarde quando a intenção é boa, e quando aplicamos amor a ação!

 

: )

 

segunda-feira, 7 de abril de 2014

40º GRAUS NO QUARTO, 80º NA ALMA...

      Calor infernal... te resta o que? Um banho... Janta, enrola e vai para o banho. Alguns minutos, muitos até. Apenas com água caindo, pensando em nada, só refrescando. Sai do banho ainda úmida e tudo cheira a refrescância, mentol e ervas. Fazer de uma terça-feira um dia incomum? Claro! Por que não? Rotinas, assim como regras foram feitas para serem quebradas... toma a mão um copo com uns três - largos - dedos de vinho. Não precisa de mais que isso. E para quebrar o silêncio? Hoje blues: Ella Fitzgerald, 1963...e ... ui... maravilha... relaxamento e silêncio mental absoluto. De algemas já nos bastam as do trabalho. Avista a janela e... por que não? O pouco do vinho já se foi... toma à mão agora um cigarro. Vai para a janela e lá fica. É mais fresco. Fuma o cigarro olhando as árvores,as casas, as luzes.
      Intoxicar-se para purificar-se... paradoxo? Talvez. Pecado? Duvido. Não acredito em nenhum. Prefiro, vejamos... pequeno delito? Perfeito! Pequeno delito. Com o som entrando pelos ouvidos, pelo corpo... baixo...de 1963. Excentricidade? Nem tanto. À meia-luz  tudo é tão mais suave... Só um momento de abstração de si mesma. Numa terça-feira com ar de sábado, em agradável própria companhia. Rompendo pequenas regras, proporcionando-se simples prazeres. Da porta para dentro é  o seu mundo. E no seu mundo você faz o que quer de si. O que quero? Por hora, só sair da rotina. Borboleteando e cantarolando em poucos trajes levemente...


Texto originalmente publicado no Coma Anárquico.

domingo, 30 de março de 2014

A PRIVADA COMO DIFERENCIADOR DE SERES

     Foi um troço muito estranho que senti, quando baixaram as correntes e as pessoas todas seguiram rumo ao mesmo objetivo: entrar na barca. Era fato que eram muitas pessoas e que todos estavam cansados. Assim como  também era fato que todos, sem exceção, gostariam de seguir a viagem marítima sentados. Mas veja bem... quando as correntes baixaram, a imagem que se formou adiante era de porteiras se abrindo e bois desgovernados fugindo correndo, fora de controle. 
     Talvez essa imagem tenha se formado na minha cabeça devido ao meu estado momentâneo paradoxal de estar em pleno horário de rush calçando havaianas e ouvindo musica leve - voltando para casa submersa em meu coma musical. Pode ser... à minha volta eu não escutava nada que acontecia senão a suavidade da música que estava ouvindo. Imagino que por isso mesmo me pus atenta a observar como quem vê de longe o desenvolver dos acontecimentos e o comportamento das pessoas. O comportamento humano. E não pude deixar de achar - lá, no meio da manada, sendo empurrada e massacrada enquanto a música me abstraía para qualquer lugar longe dali - que por tão pouco o ser humano se aproxima da condição animal. Por meio de pequenos laços, meras e simples ligações, atitudes, há uma linha tênue entre a condição humana e a animal. Tanto para quem massacra, quanto para quem é massacrado. E parece então até redundante dizer que vivemos 24h por dia (ou pelo menos deveríamos) tentando a todo custo nos afastar dessa condição. O que me fez lembrar um artigo louco sobre psicologia que li tempos atrás que dizia que o que a privada teria sido inventada justamente para afastar o ser humano da condição de animal... veja bem... a privada... serve para que a educação então? A boa índole? A tolerância?
     Ali, esmagada no meio das pessoas junto com idosos, grávidas, crianças assustadas, mantive a calma por conta da música que ouvia... radiohead... radiohead... No entanto, a visualização a qual me era promovida fazia saltar a mente os questionamentos. Fiquei observando, observando, calmamente enquanto tentava respirar,  as pessoas correndo... os olhares repressores... os empurrões... a raiva... a ausência da alma... E pensando que para muitos, o que lhes difere da condição animal infelizmente é apenas a privada mesmo.


(texto originalmente publicado no Coma Anárquico)


domingo, 23 de março de 2014

SORRIA - VOCÊ PODERIA ESTAR SENDO FILMADO

      Estava no trabalho quando me ocorreu a velha idéia novamente. Na verdade, vinha de algo tolo que estava executando, e do pensamento de sair do corpo e olhar-me de longe executando o tal algo. Ver-se fazendo aquilo. Olhar-se de fora, sendo você mesmo uma terceira pessoa a observar a si próprio, a observar a sua interação com as coisas ao redor e com os demais. A velha vontade de saber que percepção tem uma outra pessoa de você. Como interajo? Como sou executando uma ou outra tarefa? Como sou realizando algo tolo? E algo bom?
      Estamos sempre tão embebidos, embriagados de nós próprios e nossos anseios e inquietudes que sequer percebemos o que passamos, como nos integramos e se de fato o fazemos como deveríamos.  A idéia de ver-se fora do corpo me fez lembrar de quando criança perguntar em casa o que era consciência. Como o conceito (assim como para toda criança) me soava demasiadamente complexo, simplifiquei imaginando que minha consciência era eu, ou uma versão idêntica a mim, vestindo sempre shortinho e blusinha de criança e usando... pulseiras de plástico rosas. Minha consciência tinha pulseiras que me davam aquela inocente inveja infantil. E ao mesmo tempo ela me lembrava sempre que a inveja era algo ruim de se sentir. Tentava me convencer daquilo. Blah! Para ela era fácil falar, afinal ela tinha as pulseiras! Mas de fato, a minha consciência (na minha concepção infantil) era mais forte e mais decidida do que eu. Sempre atenta, tinha para todas as situações algo a dizer de forma enérgica, agitando as pulseiras que eu queria usar, e me repreendendo quando necessário. Era como estar fora do corpo e me ver como quem assiste. Embora, nessa minha concepção infantil, minha consciência fosse tão diferente de mim. Talvez por querer eu, como toda criança, fazer coisas que ela sempre (sacudindo as pulseiras) repreendia. Talvez... O fato é que conforme os anos foram passando, começamos a concordar mais, eu e minha consciência. Até que as pulseiras se foram, e não sei agora que tipo de jóias ou bijuterias ela usa. Mas ficou a velha vontade de me ver de fora de novo. Pôr uma câmera escondida e gravar a minha participação em tal evento, minha atitude em uma ou outra ocasião, meu sono, meu banho... e avaliar descobrindo se falo dormindo, se participo do mundo como deveria, se cumpro tarefas como penso que cumpro, se executo as atividades como imagino que estou executando, se gesticulo mais ou menos quando falo, se falo alto, se rio demais... Qual imagem passamos? Que cara damos aos eventos? Quem somos nós quando nos vemos de fora? Somos vistos de fora da mesma forma que nos guardamos e nos sentimos por dentro?
      Fico me perguntando acima de tudo se uma forma tivesse minha consciência hoje - como na minha imagem personificada da infância - que tipo de visual teria. Penso, penso... Imagino, imagino... e de fato, a única conclusão que chego é que na certa não usaria mais pulseiras de plástico rosas.

(texto originalmente publicado no Coma Anárquico)

domingo, 16 de março de 2014

DA SUBMERSÃO À CALMA

Afunde seu corpo todo na água fria em um dia quente.
Mantenha apenas a cabeça para fora
De forma confortável.
Encare um ponto fixo, onde não houver razão ou ponto algum.
E faça, de verdade,  uma pausa para respirar...
Quando tudo parecer te engolir ou massacrar,
Faça simplesmente uma pausa para respirar...
Mas não inspire como se houvesse perdido o fôlego,
Ou expire como se libertasse verdadeiros demônios...
Não...
Desarme-se das armaduras incômodas e quentes
E apenas, respire...
Vagarosamente...
E fale consigo mesmo, na língua do silêncio sobre coisa alguma.
Não se pergunte.
Não se responda.
Não se olhe.
Não se gaste.
Respire...
E sinta a água que te bate no corpo,
O vento que te bate nos cabelos,
O sopro que te bate no peito,
E a tranquilidade que te bate na alma...
E que fala contigo bem baixo: "_se estique."
E te pede por vezes, quase sempre: "_se ajeite."
E te ordena com força, imponente: "_se acalme."
Se acalme, e respire.
Vagarosamente...
E saia da água agora,  pois já é tarde.


quarta-feira, 6 de novembro de 2013

No silêncio


                 A maior parte das vezes que chego em casa – senão todas – opto (quase sempre), pelo silêncio. Seja lá de onde quer que tenha vindo, o que quer que tenha feito, há algo no mundo que me causa um outro algo enlouquecedor que só passa assim: no silêncio. Na ausência de vozes, de sons. De música, de gritos, de fúria, de opiniões. No completo, acolhedor, e absoluto silêncio. Não só o da porta do banheiro trancada e do contentamento por enganadores poucos minutos de paz. Não só o da cama ao deitar, o da tv enquanto não é ligada, ou o da pausa entre uma música e outra que toca no celular sem ser ouvida com atenção. Mas aquele realmente grandioso. Imponente. Ensurdecedor. Aquele que para ao seu lado lenta e calmamente e te diz com voz mansa: “_somos só eu e você aqui, agora se ouça.” Se ouça...

                Você para então, e pensa. E paradoxalmente ou não, percebe que sem o silêncio é impossível se ouvir. Que mesmo no silêncio você precisa forçar, e forçar... e que às vezes pode até conseguir se ouvir um pouco. Mas nem sempre consegue se encontrar. Que sua voz interna vem e ecoa de onde não se vê. De onde você não sabe a localização. Vem da direita? Da esquerda? Vem mais da frente? Vem mais de trás? Você busca... busca... Até que o primeiro ruído apareça no ambiente, e o silêncio te diga: “_ seu tempo acabou, volto outra hora.” E então quando estava quase e encontrando com ajuda da bússola do silêncio, você se perde outra vez... se perde mas pelo menos vê claramente que em meio aos barulhos da vida é realmente impossível se ouvir ou se encontrar.

sábado, 16 de março de 2013

ANGUSTIANTE RECOMEÇO SEMANAL

Das espectativas para uma segunda-feira pode-se dizer categoricamente que o que se tira em geral é uma espécie de  inquietude que rasga por dentro. A sensação da volta a rotina que te faz ser cuspido da cama num horário que não lhe é o natural, para efetuar tarefas que muitas vezes não lhe são agradáveis, conviver com pessoas que ocasionalmente não lhe são simpáticas... A violência diária a qual somos sujeitados já no despertar matinal.  A tortura cotidiana que te massacra aos poucos, te tira a leveza e te faz questionar-se exaustivamente. A necessidade de adaptar-se, adequar-se ao meio, podar-se em função de um coletivo ao qual internamente nem sempre nos consideramos sequer parte complementar. Mas que ainda assim, na busca pela constante adaptação, nos forçamos a nos regrar. Nós próprios, carrascos de nós mesmos. Nos violentando em prol do "todo", quase que consenso universal. Sendo eventualmente ou geralmente regra geral. Nos mutilando mentalmente... mesmo que em alma jamais nos dobremos.
Afinal, há que se ter ao menos um plano onde possamos nos considerar intactos.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

CITAÇÃO - Por papai...

Ele teve dificuldade em postar o comentário, o que foi bom. Pois achei que seu comentário merecia ser citado com maior espaço para ser, estar, e permanecer...

Obrigada pelos elogios, pai. Contigo aprendi a escrever no banheiro rss...
Lindo ensaio o seu também...

"Ah,
a correria...
cada vez mais corrida...
a vida...
cada dia mais ida...
o tempo...
a escorrer entre os dedos...
entre os passos...
entre os lábios...
entre o dito...
o não dito...
entre os dentes...
         zekarlus"

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

DUROU POUCO, E JÁ ERA OUTRO DIA...

Quando viu, já estava de pé.
Mochila nas costas,
Casaco esquentando,
Passagem nas mãos...
Fechou os olhos e quando abriu, já estava trabalhando.
Algumas horas, blábláblá, e quando viu já era almoço.
Engoliu a comida, fez uma hora...
E sem perceber já estava de volta ao trabalho!
Mal pôs diários e livros na mesa
E quando viu, já estava saindo.
Mochila de novo nas costas,
Casaco esquentando pouco,
Passagem de novo nas mãos...
Fechou os olhos e quando abriu, já estava no primeiro ponto
Piscou, e olhou de novo
Já entrava no segundo ônibus.
Fechou de novo os olhos, abriu e olhou pela janela...
E quando viu, já era hora de descer.
Dali, mais alguns minutos...
E quando viu, já estava no portão dela.
Mochila ainda nas costas,
Casaco esquentando médio,
Sorriso nos lábios,
Cigarro nas mãos...
Piscou, e quando viu, já estava nos braços dela
Mochila agora no chão,
Casaco agora no chão,
Edredon esquentando muito,
E ela nas mãos...
Respirou, e quando viu já estava dormindo.
E quando viu novamente, já havia acordado!
Piscou os olhos e já estava de pé.
Mochila de novo nas costas,
Casaco esquentando normal,
"nos vemos mais tarde?" nos lábios,
e cigarro e moedas nas mãos.

O dia passa muito rápido,
Quando tudo que se quer é estar junto...

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

DEIXE EM CASA O QUE NÃO PRECISA

       O celular ao despertar lhe causou enorme susto. Nunca gostou de sustos. Abriu os olhos num pulo e acionou a soneca. Mais cinco minutos, e se encaixou de novo no abraço dele. Cinco minutos depois despertava novamente em outro pulo. Levantou-se então da cama e foi para o banho. Já no banho sentiu falta de algo, mas ainda com sono não soube identificar o que. Whatever... a medida que fosse despertando do seu momentaneo estado de zumbi, identificaria aos poucos o que lhe faltava... Voltou para o quarto para se arrumar apressada. Um beijo nele : "bom dia". Outro beijo com a frase corriqueira: "estou atrasada..." "de novo..." ele deve ter pensado... Vestiu-se rapidamente, catou tudo que precisava. Celular... carregador... esparadrapo (pudera,sapatos de salto às vezes machucam...). Uma olhada ao redor... sentia como se estivesse esquecendo alguma coisa... Mais uma olhada no espelho... mais uma olhada dentro da bolsa... volta ao quarto que não é seu enquanto ele tira o carro da garagem. "Está faltando alguma coisa..." pensa novamente, enquanto procura olhando de novo ao redor. Entrega ao acaso, resolve ir embora... Carona até o ponto de ônibus. Mais alguns beijos nele, e uma rápida olhada no carro... "está procurando algo?" "Pois é, não sei bem... sinto que estou esquecendo alguma coisa..." Pega e ônibus e ruma para o trabalho.
       Chegando ao trabalho, normal. Bom dia sorridente a todos, pão na chapa na mão. Não identifica o que falta ainda. Executa algumas tarefas, sente-se mais leve e tal. Mas eis que por volta da metade da manhã... meio que como um soluço, um solavanco, um sobressalto, ela percebe o que lhe falta. Percebe quase que surpresa. Na verdade, surpresa de fato... percebe e diz a si mesma chocada: "meu deus (não que seja religiosa), estou sem dor de cabeça..." Para, dá uma respirada e se concentra nas sensações do crânio. Seria possível?? Depois de 17 dias aguda, direto, sem parar, a dor teria lhe dado uma trégua?? Se concentra no crânio de novo enquanto todos a sua volta gritam. Não dói... nenhuma dor... nada... quer dizer... uma ou 2 fisgadinhas tímidas de tempos em tempos, mas de fato... nada agudo...nada queima... nada... Com imensa estranheza constata que era a dor que lhe faltava. Era a dor que estava "esquecendo"... Sentiu-se de repente tão bem... o bom humor que já lhe era de costume estava em maior tamanho nessa manhã, era verdade... Mas não havia a sequer atribuído ao fato de estar ainda mais bem humorada por estar na verdade mais aliviada. Que estranho identificar que um mal estar possa, devido a sua constância, se tornar quase que um companheiro... um pertence... a ponto de pensar que ao sair sem dor, que estaria esquecendo alguma coisa!
       Desfranziu a testa concentrada para dar mais lugar a suavidade. Acariciou levemente a testa, para não pressionar nada... Certificou-se...Relaxou os músculos da face... Mexeu nos cabelos com calma... Soltou-os para ficar ainda mais leve...Revolveu não lutar contra nada. Não se contrariar com nada que ouvia. Não se aborrecer com nenhum fator externo. Não se cansar com nenhuma gritaria. E ficou feliz ao ver que funciona. A abstração em graus leves, ainda funciona! Olhou para dentro de si, procurou seus melhores sentimentos. Suas melhores ações. Seu melhor sorriso. Vestiu de leveza seu rosto e pegou o celular para ligar para ele. Estava feliz e pôde dizer sorrindo: "descobri o que estava faltando... estou sem dor de cabeça..."

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O TEXTO MAIS HONESTO

      Pensei semana passada no que seria para mim o meu texto mais honesto. Não dá para ser honesta e deixar de falar de si... No meu texto mais honesto creio que eu me desfaleça e me desfaça. Me descreveria? Talvez... afinal, é o meu texto mais honesto...
       No meu texto mais honesto inicio então admitindo: minha cabeça derrete várias vezes ao dia. Queima, arde, e dói, e me confunde às vezes. Por ser meu texto mais honesto posso seguir reconhecendo que se muitas vezes me perco, me perco porquê tenho chamas na mente. E que não reclamar disso não é nenhum ato nobre. É apenas protocolo. Sendo um texto tão honesto posso então dizer que minha vontade é gritar ao mundo todo o quanto me derrete a mente de minutos em minutos...e que por conta disso, me vazam os pensamentos em gotas quentes pelos ouvidos eventualmente... E admitir que isso - também eventualmente, consideremos -  faz com que eu me sinta meio triste.
       No meu texto mais honesto talvez eu também deva dizer que pouco do dia-dia me agrada. Mas que também (ora pois, pudera!) são as coisas mais simples que me deixam feliz. Posso seguir admitindo, que sou mais sensível do que pareço. E que (ainda honestamente, claro), quebro muitas vezes a sensibilidade com meu trator sentimental desengonçado. Que tenho a boca cheia de palavras pesadas e desorganizadas... porém o coração cheio de boas intenções. Mas, sem problemas! Claro! Afinal, redundante ou não, é meu texto mais honesto!
       No meu texto mais honesto faço para descansar uma pausa... paro e penso... Me volto para mim mesma e... estranho... me vejo tão menina... Retomo então meu texto mais honesto me dedicando a contar que gosto de picolé depois do almoço, que ainda conto os dias para assistir a uma banda que amo como na adolescência...que quartos totalmente escuros me dão falta de ar, que as cobranças constantes me sufocam ao extremo.
Que sinto falta de fazer a mochila e sumir ocasionalmente...
Que mesmo sabendo nadar, não nado em mar aberto - embora quisesse, admito em segredo...
E que preferia ser menos caxias.
E que me admiro às vezes por ser tão caxias.
E que - que droga! -  nem sempre encontro o equilíbrio entre ser ou não caxias.
Que gosto de livros densos, que aprecio música exótica e intensa...
E que tenho medos e angústias que não identifico a procedência.
E pesadelos os quais não identifico também.
       É meu texto mais honesto, e então posso dizer que não tenho um sonho específico. Uma ambição? Um desejo? Uma meta? Não tenho...nenhuma grande vontade a não ser viajar e conhecer lugares... E que por mais que pense e repense, apenas digo honestamente que em muito não me encaixo. Mas que também não saberia apontar para onde eu iria me encaixar.
Que temo os futuros resultados da exaustão diária...
E que o cansaço mental e físico me mutila a alma...
É meu texto mais honesto né... então apenas sigo admitindo.
Admito então que sou tão pequena...
Admito então que sou apenas, humana...

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

SAMBA E AMOR

Samba e Amor

Chico Buarque

Eu faço samba e amor até mais tarde
E tenho muito sono de manhã
Escuto a correria da cidade que arde
E apressa o dia de amanhã
De madrugada a gente 'inda se ama
E a fábrica começa a buzinar
O trânsito contorna, a nossa cama reclama
Do nosso eterno espreguiçar
No colo da bem vinda companheira
No corpo do bendito violão

Eu faço samba e amor a noite inteira
Não tenho a quem prestar satisfação

Eu faço samba e amor até mais tarde
E tenho muito mais o que fazer
Escuto a correria da cidade. Que alarde!
Será que é tão difícil amanhecer?
Não sei se preguiçoso ou se covarde
Debaixo do meu cobertor de lã

Eu faço samba e amor até mais tarde
E tenho muito sono de manhã.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

PRESENTE... AUSENTE...

Pousada serena sobre a cadeira...
Cotovelos na mesa... pensante... concentrada...
Dispersa, diriam os outros.
Concentrada, diz a si mesma...
Concentrada, repete a si mesma...
Concentrada, engana a si mesma...

Vagam os pensamentos, sim, é verdade
Que importa? São seus!
Por minutos apenas, que vaguem!
O corpo presente às vezes requer alma ausente
A alma ausente por vezes salva o corpo presente.
De corpo presente... Com rugas na testa
A mente plainando sem rumo... ausente.
Semáforos piscando em verde, suaves.

E seus pensamentos??
Pois então... São livres!
Em essência ou não, que vaguem!
E o resto, ora pois...
O triste resto...
O chato resto...
O entediante resto...
Que fique para depois.
Os pensamentos são seus.
São meus.
Então que vaguem...

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

ANGUSTIANTE RECOMEÇO SEMANAL

Segunda-feira... merecia esse texto novamente, não??


      Das espectativas para uma segunda-feira pode-se dizer categoricamente que o que se tira em geral é uma espécie de  inquietude que rasga por dentro. A sensação da volta a rotina que te faz ser cuspido da cama num horário que não lhe é o natural, para efetuar tarefas que muitas vezes não lhe são agradáveis, conviver com pessoas que ocasionalmente não lhe são simpáticas... A violência diária a qual somos sujeitados já no despertar matinal.  A tortura cotidiana que te massacra aos poucos, te tira a leveza e te faz questionar-se exaustivamente. A necessidade de adaptar-se, adequar-se ao meio, podar-se em função de um coletivo ao qual internamente nem sempre nos consideramos sequer parte complementar. Mas que ainda assim, na busca pela constante adaptação, nos forçamos a nos regrar. Nós próprios, carrascos de nós mesmos. Nos violentando em prol do "todo", quase que consenso universal. Sendo eventualmente ou geralmente regra geral. Nos mutilando mentalmente... mesmo que em alma jamais nos dobremos.
Afinal, há que se ter ao menos um plano onde possamos nos considerar intactos.

Texto postado anteriormente por mim em Coma Anárquico e "importado" para cá porque o dia estava propicio... rs

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

RECICLANDO ROUPA VELHA PARA FALAR DE AMOR...

Estava a pensar pela manhã sobre o amor e suas fragmentações e escudos... na verdade, o pensamento me veio a mente após a leitura de um texto de Fernando Pessoa que me fora carinhosamente enviado... o amor e suas mil faces... seu romantismo místico, sua configuração simples... suas enganações idealizadoras e/ou seu aspecto real e objetivo. Pólos opostos, conflitantes e conceitos válidos, que mostram ser possível a existência de explicação mental para o que cobre e envolve o sentimental... o uso da razão para explicar emoções sempre me atraiu muito. Acho extremamente intrigante...

“… a principal condição para realização do amor é a superação do narcisismo. A orientação narcisista é aquela em que só se experimenta como real o que existe dentro da pessoa, ao passo que os fenômenos do mundo exterior não têm realidade em si mesmos, mas são experimentados somente do ponto de vista de serem úteis ou perigosos. O pólo oposto ao narcisismo é a objetividade; é a faculdade de ver pessoas e coisas tais como são, objetivamente, e a capacidade de separar esta imagem objetiva de uma imagem formada pelos desejos e temores que se tenham. Todas as formas de psicose mostram a incapacidade de ser objetivo, em extremo grau. Para a pessoa insana, a única realidade que existe está dentro dela, é a de seus temores e desejos”.( Erich Fromm e o livro "A Arte de Amar")

Aos que julgam frios os que apenas se intitulam objetivos, um interessante conceito... o julgamento de frieza viria então do medo? Na certa, da falta de objetividade ao encarar o outro não como o que realmente é, mas como se desejaria que ele fosse. Me pergunto por que tanto medo de defeitos alheios, se somos pois todos bem e mal, bonito e feio, qualidades e defeitos, yin e yang?? O medo de encarar o outro viria então do medo de encararmos a nós próprios?
E dando sequência:

"...O amor só é possível se duas pessoas se comunicam mutuamente a partir do centro de suas existências e, portanto, se cada uma se experimenta a partir do centro de sua própria existência. Só nesta "experiência central" existe realidade humana, só aí há vivacidade, só ai está a base do amor. Assim experimentado, o amor é um desafio constante; não é um lugar de repouso, mas é mover-se, crescer, trabalhar juntamente; haja harmonia ou conflito, alegria ou tristeza, isso é secundário em relação ao fato fundamental de que duas pessoas se experimentam mutuamente a partir da essência de sua existência, que são uma com a outra por serem uma consigo mesmas, em vez de fugir de si mesmas. Só há uma prova da presença do amor: a profundidade da relação e a vivacidade e o vigor em cada pessoa envolvida; este é o fruto pelo qual o amor é reconhecido..." (Erich Fromm e o livro "A Arte de Amar")

Portanto, antes de se "querer" amar há  primeiro que se conhecer a si mesmo em essência. O que é o maior complicador partindo-se do princípio de que o que ocorre na maioria das vezes é que as pessoas de fato não se conhecem... Penso então que seguindo a lógica de Erich Fromm, desprender-se e perder o medo de si próprio seriam então a forma mais ampla de se conseguir amar de dentro para fora, sem narcisismos, quebra e mudança de realidades, e endeusamento da pessoa amada  no intuito de não cair na armadilha de fundar-se não no que a pessoa é de fato, mas no que se desejaria que ela fosse.


Texto postado por mim anteriormente em Coma Anárquico, e reciclado para o Imersão Voluntária. Quem já comentou, comente de novo... rs

segunda-feira, 25 de julho de 2011

RASGANDO INGRESSOS PARA O SANATÓRIO GERAL

Mal estar,
Calafrios,
Enjoo continuo, tremedeiras, tensão muscular
Enxaqueca, bruxismo...
De
   ses
      pe
         ro
_ Tudo indica que é decorrente de estresse - escuta com atenção e expressiva ruga na testa.
Usam jalecos e possuem pranchetas,
Devem saber o que dizem.
_ Aconselho que procure um psiquiatra...
O encaminhamento é feito, de forma simples.
Papel, caneta, carimbo
Dizeres que podem mudar uma vida.
Remédios?
Não sei... talvez não hoje...
Olha o papel,
Re-lê os dizeres...
Mas se sente-se novamente tão bem! Não entende o porquê...
Dobra o papel.
Guarda o papel.
Na verdade, ignora o papel...
Homeopatia, florais, chás, desenhos, mandalas
Volta ao que pensa ser melhor opção.
Imagina que podem ajudá-la a manter-se sadia e sã.
O problema, é que não sabe de fato até quando...

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Drops...

     Reparei que ando mais feminina... a sensibilidade tem me feito bem. Sensibilidade mesmo que na força... suavidade ainda que com garra... Serenidade em tons de azul... Derramando sobre meus olhos suaves cores em dégradé... Ser mulher é ter a alma colorida... e colorida olho-me para dentro, e me sinto feliz...

"O Amor...
É difícil para os indecisos.
É assustador para os medrosos.
Avassalador para os apaixonados!
Mas, os vencedores no amor são os
fortes.
Os que sabem o que querem e querem o que têm!
Sonhar um sonho a dois,
e nunca desistir da busca de ser feliz,
é para poucos!!"

Cecília Meireles

Bom dia Cecília... fazia tempo que não nos víamos... você também já acordou um dia se sentindo levemente... mais mulher?

terça-feira, 14 de junho de 2011

A ALVORADA DO AMOR

- Li um poema do livro que você me deu, que me lembrou você...
- É mesmo? Qual o nome?
- A Alvorada do Amor, de Olavo Bilac...
- Vou procurar para ler. Fiquei curiosa...

...  ela lê o poema, se arrepia e fica totalmente sem palavras ...

A ALVORADA DO AMOR
Olavo Bilac

Um horror, grande e mudo, um silêncio profundo
No dia do Pecado amortalhava o mundo.
E Adão, vendo fechar-se a porta do Éden, vendo
Que Eva olhava o deserto e hesitava tremendo,
Disse:

Chega-te a mim! entra no meu amor,
E e à minha carne entrega a tua carne em flor!
Preme contra o meu peito o teu seio agitado,
E aprende a amar o Amor, renovando o pecado!
Abençôo o teu crime, acolho o teu desgôsto,
Bebo-te, de uma em uma, as lágrimas do rosto!

Vê tudo nos repele! a tôda a criação
Sacode o mesmo horror e a mesma indignação...
A cólera de Deus torce as árvores, cresta
Como um tufão de fogo o seio da floresta,
Abre a terra em vulcões, encrespa a água dos rios;
As estrêlas estão cheias de calefrios;
Ruge soturno o mar; turva-se hediondo o céu...

Vamos! que importa Deus? Desata, como um véu,
Sôbre a tua nudez a cabeleira! Vamos!
Arda em chamas o chão; rasguem-te a pele os ramos;
Morda-te o corpo o sol; injuriem-te os ninhos;
Surjam feras a uivar de todos os caminhos;
E, vendo-te a sangrar das urzes através,
Se amaranhem no chão as serpes aos teus pés...
Que importa? o Amor, botão apenas entreaberto,
Ilumina o degrêdo e perfuma o deserto!
Amo-te! sou feliz! porque, do Éden perdido,
Levo tudo, levando o teu corpo querido!

Pode, em redor de ti, tudo se aniquilar:
Tudo renascerá cantando ao teu olhar,
Tudo, mares e céus, árvores e montanhas,
Porque a Vida perpétua arde em tuas entranhas!
Rosas te brotarão da bôca, se cantares!
Rios te correrão dos olhos, se chorares!
E se, em tôrno ao teu corpo encantador e nú,
Tudo morrer, que importa? A natureza és tu,
Agora que és mulher, agora que pecaste!
Ah! bendito o momento em que me revelaste
O amor com teu pecado, e a vida com o teu crime!
Porque, livre de Deus, redimido e sublime,
Homem fico na terra, luz dos olhos teus,
Terra, melhor que o Céu! homem maior que Deus!

segunda-feira, 13 de junho de 2011

A ALMA BUSCADA

Quando peso os prós e os contras
das coisas que meu amor encontra
uma boca curva, um punho de fogo
um cenho interrogativo, um belo jogo
de palavras tão batido quanto o pecado
uma orelha pontuda, um queixo rachado
membros longos, agudos e olhos oblíquos
nem frios, nem meigos, nem escurecidos
Quando então pondero usando a razão
nas superficialidades que satisfazem meu coração
sou surpreendida com tal banalidade
me maravilho com a minha normalidade.


Dorothy Parker

terça-feira, 31 de maio de 2011

PARDALZINHA

Hoje acordei com pensamentos de gaiola...
Enjaulados,
Trancafiados,
Acorrentados... com cadeados.

De alma pesada, buscando o ar...
Asfixiando-me em sentimentos.

Com asas quebradas,
Pulando tensa...
Tentando voar...